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A inteligência artificial já está mudando o mercado de trabalho americano, mas não da maneira que as previsões mais alarmistas sugeriam. Enquanto algumas empresas cortam funções que podem ser automatizadas, a corrida pela tecnologia cria demanda por trabalhadores em áreas que vão de engenharia e infraestrutura a novas profissões ligadas à própria IA. O resultado, até agora, é menos uma onda de desemprego e mais uma redistribuição do trabalho.
Em agosto, os Estados Unidos criaram 162 mil empregos e mantiveram a taxa de desemprego em 4,1%. Entre os jovens de 20 a 24 anos, frequentemente apontados como um dos grupos mais vulneráveis à automação, a diferença em relação à taxa geral está próxima de uma das menores das últimas décadas. Os números não significam que a IA não esteja eliminando postos, mas indicam que seus efeitos ainda são mais concentrados do que generalizados.
Empresas americanas anunciaram cerca de 16 mil demissões relacionadas à IA por mês, em média, neste ano. Atendimento ao cliente, secretariado e funções administrativas estão entre as áreas mais expostas. Desde 2023, o emprego caiu cerca de 10% entre trabalhadores de atendimento ao cliente e 15% entre secretários e assistentes administrativos. O Bureau of Labor Statistics prevê a eliminação de 752 mil postos em ocupações de suporte administrativo até 2035.
O outro lado da equação está nos investimentos. A expansão da IA exige data centers, servidores, chips, sistemas de refrigeração e novas estruturas de energia. Segundo o Goldman Sachs, os gastos anuais com essa infraestrutura estão cerca de US$ 500 bilhões acima do nível de 2022. A construção de data centers nos Estados Unidos já supera US$ 75 bilhões por ano e vem puxando a contratação de eletricistas, engenheiros, técnicos e especialistas em manutenção.
Nos cinco setores mais diretamente ligados a essa expansão, o emprego cresceu cerca de 320 mil postos acima do esperado pelas tendências gerais de construção e manufatura desde 2023. As vagas em data centers mais que dobraram em dois anos. A pressão também chegou aos salários: funções de instalação e manutenção nesses centros oferecem remuneração cerca de 40% maior que trabalhos semelhantes em outros setores, segundo a Indeed.
A IA também está criando uma nova camada de empregos de escritório. Engenheiros de IA, especialistas em dados e profissionais responsáveis por adaptar modelos para empresas ocupam funções que praticamente não existiam poucos anos atrás. O LinkedIn estima que as ofertas para algumas dessas posições tenham dobrado desde 2023-24. O Burning Glass Institute calcula que cerca de 1% dos empregos profissionais americanos (aproximadamente 1 milhão de postos) já esteja diretamente ligado à IA.
“Há ainda um efeito mais difícil de capturar: produtividade. Se a tecnologia permite que um advogado produza mais, que um analista processe mais informações ou que uma empresa reduza o custo de um serviço, a demanda por aquele trabalho pode aumentar”, diz Bianca Junqueira, CRO e sócia da Jumpstart. É uma das razões pelas quais algumas profissões consideradas vulneráveis continuam crescendo. Entre 2023 e 2025, o emprego de paralegais aumentou cerca de 11% e o de analistas de pesquisa de mercado, 6%, acima da média nacional de aproximadamente 2,5%.
A transformação, porém, está longe de ser neutra. A IA pode eliminar uma função e criar outra sem que o trabalhador que perdeu seu emprego tenha as habilidades necessárias para ocupar a nova vaga. É aí que está o principal desafio da transição: não apenas quantos empregos serão destruídos ou criados, mas a distância entre eles.
Por enquanto, os dados americanos não sustentam a tese de que a IA esteja provocando desemprego em massa. Sustentam algo mais interessante: a tecnologia já começou a reorganizar o mercado, retirando valor de algumas tarefas e criando demanda por outras. O tamanho dessa mudança ainda é incerto. A direção, cada vez menos.
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