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Julho de 2026 — Fabricantes brasileiros de pincéis, rolos, lixas, desempenadeiras e outros acessórios para pintura estão perdendo espaço e, em alguns casos, a própria identidade nas respostas geradas por inteligência artificial.
Pesquisa conduzida pela consultoria de comunicação estratégica Pixel&Press identificou situações em que fabricantes do setor foram apresentados como empresas de autopeças, colchões e pneus. O problema ocorreu quando os sistemas foram consultados apenas com o nome comercial das marcas, sem indicação de sua categoria de atuação.
O levantamento também revelou forte concentração nas recomendações de compra. Cinco marcas ocuparam quase dois terços de todo o espaço de recomendação analisado. Já os 14 fabricantes nacionais de médio porte da amostra principal, somados, receberam menos de um quarto das citações. Sete deles não aparecem nenhuma vez.
Os dados fazem parte da primeira edição do Índice de Citabilidade de Marca, estudo desenvolvido pela Pixel&Press para avaliar como os sistemas de inteligência artificial identificam, descrevem e recomendam marcas.
A pesquisa ganha relevância em um momento em que a IA começa a participar diretamente das decisões de consumo. Levantamento da Bain & Company divulgado em 2025 apontou que 58% dos brasileiros valorizam o uso dessas ferramentas para comparar preços, produtos, vendedores e sites. Na categoria de casa e decoração, 63% disseram estar dispostos a migrar parte das compras para assistentes de inteligência artificial.
Quando a marca perde o próprio nome
O resultado mais grave não foi apenas a ausência das empresas nas recomendações, mas o que aconteceu quando algumas delas foram consultadas diretamente.
Ao receber apenas o nome comercial, sem referência ao setor, os modelos frequentemente não pediram esclarecimento. Em vez disso, responderam com segurança sobre outra empresa que utilizava o mesmo nome ou um nome semelhante.
Um fabricante de acessórios para pintura foi tratado por três dos quatro sistemas como distribuidora de autopeças. Uma das respostas chegou a apresentar um conselho de compra sobre peças automotivas.
Outro fabricante do segmento foi identificado como empresa de colchões, com direito a uma tabela comparativa sobre molas ensacadas e densidade de espuma. Em um terceiro caso, um fabricante nacional de rolos para pintura foi apresentado como fabricante de pneus.
As empresas citadas pelos modelos existem. O problema não foi necessariamente a invenção de uma companhia, mas a associação do nome consultado à organização errada.
“Não houve apenas uma resposta imprecisa sobre um produto. Houve uma escolha entre empresas reais, e a fabricante do setor de pintura perdeu essa disputa de referência. Para o consumidor, a marca praticamente deixa de existir naquele momento da busca”, afirma Bia Bryan, sócia-fundadora da Pixel&Press.
Um dos casos mais reveladores envolveu um fabricante nacional de rolos para pintura que perdeu a identificação do próprio nome para uma fabricante de pneus de motocicleta.
A empresa de pneus possuía três funcionários registrados e pouco mais de cem seguidores em uma rede social, mas mantinha perfis ativos em diferentes plataformas, anúncios em marketplace e ficha em sites de reclamações. O fabricante de ferramentas tinha site próprio, porém uma presença digital menos distribuída.
“O resultado mostra que o porte da empresa, isoladamente, não define qual marca será encontrada. A clareza e a consistência das referências publicadas sob determinado nome podem ter mais peso do que o tamanho da organização”, explica Beatriz.
Uma mudança elevou os acertos de 39% para 100%
Para investigar a causa das falhas de identificação, a Pixel&Press realizou um experimento controlado com as seis marcas que apresentaram problemas.
As empresas foram consultadas novamente nos mesmos sistemas, no mesmo dia, em janela anônima e em uma nova conversa. A única alteração foi acrescentar ao nome comercial a categoria de atuação da empresa.
Nas consultas feitas apenas com o nome, foram registrados sete acertos em 18 testes, índice de identificação correta de 39%. Com a categoria acrescentada, as mesmas marcas foram corretamente identificadas nas 18 consultas, elevando o resultado para 100%.
Nada foi publicado, corrigido ou otimizado entre as duas rodadas.“O que mudou não foi o conjunto de informações disponível, mas o caminho de acesso a elas. As empresas já possuíam a informação correta em seus canais, mas o nome isolado não foi suficiente para conduzir os sistemas até a organização certa”, afirma Cíntia Miguel, sócia-fundadora da Pixel&Press.
A análise das fontes reforçou essa diferença. Nas consultas feitas somente com o nome comercial, o site próprio das marcas não apareceu como fonte nenhuma vez. Quando a categoria foi acrescentada, o site oficial apareceu em dez das 18 consultas.
Identidade correta não garante reputação favorável
Ser identificado corretamente é apenas a primeira etapa. Depois de localizar a empresa certa, os sistemas passam a avaliá-la com base nas fontes disponíveis.
Duas marcas que inicialmente estavam invisíveis ou eram confundidas passaram a ser corretamente reconhecidas quando a categoria foi incluída. Em seguida, porém, receberam avaliações negativas.
Sobre uma delas, um modelo afirmou que não a colocaria entre as líderes do segmento e observou que ela raramente era citada como referência por profissionais. A fonte apresentada foi um fórum de discussão.
Sobre outra empresa, um sistema apontou críticas relacionadas à durabilidade dos produtos e recomendou um concorrente, utilizando como base uma plataforma de reclamações.
Nas perguntas de recomendação, as principais fontes citadas foram sites de varejo, blogs de fabricantes de tintas, canais de vídeo, redes sociais e sites de ranking com links de afiliados.
Não foi identificada nenhuma fonte de imprensa nem fonte institucional pertencente a fabricantes de acessórios para pintura.“Se o fabricante não explica de forma clara quem é, o que produz e por que seus produtos são relevantes, outras fontes acabam construindo essa narrativa por ele”, afirma Cíntia.
Sobre a pesquisa
A primeira edição do Índice de Citabilidade de Marca foi conduzida em julho de 2026 sobre o setor brasileiro de ferramentas e acessórios para pintura e preparação de superfícies.
Ao todo, foram avaliadas 29 marcas: 14 fabricantes nacionais de médio porte na amostra principal, seis marcas líderes no grupo de controle e nove marcas de sortimento sem fábrica identificável no grupo comparativo.
Foram analisados ChatGPT, Google Gemini, Perplexity e a Visão Geral criada por IA do Google. Todas as consultas foram realizadas em português brasileiro, em sessões sem histórico, com capturas de tela integralmente arquivadas.
A revisão conduzida pela Pixel&Press não identificou outra pesquisa brasileira pública com o mesmo desenho metodológico. Os estudos semelhantes localizados foram realizados nos Estados Unidos e publicados em inglês.
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