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Uso sem prescrição e falsificação elevam risco das canetas emagrecedoras
Estudo internacional identifica venda online ilegal com produtos de baixa pureza e contaminação, enquanto a OMS confirma circulação de lotes falsificados
Uma pesquisa da revista Journal of Medical Internet Research analisou 1.080 links de venda de semaglutida — princípio ativo presente em medicamentos como o Ozempic — e identificou 59 farmácias online ilegais oferecendo o produto sem exigência de receita. Juntas, essas páginas concentravam milhões de acessos. Entre as amostras compradas, os pesquisadores encontraram falhas na embalagem, pureza muito abaixo do esperado, concentração do princípio ativo até 38% acima do declarado no rótulo e presença de endotoxinas, substâncias que podem provocar reações inflamatórias no organismo.
“Ao injetar um produto falsificado, o principal risco é não saber o que, de fato, está sendo aplicado: pode haver dose incorreta do princípio ativo, impurezas e até contaminantes. [...] Na prática, isso pode se traduzir em reações adversas imprevisíveis, perda de eficácia, e maior chance de eventos graves”, explica Rafael Appel Flores, farmacêutico e Diretor Científico da Dr. Fisiologia.
O estudo mostra que o problema envolve tanto o uso sem acompanhamento médico quanto a procedência do produto.
Alerta internacional para lotes falsificados
A preocupação não se limita ao ambiente virtual. Em 2024, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre a identificação de três lotes falsificados de Ozempic detectados nas Américas e na Europa, incluindo o Brasil. Segundo o comunicado, os produtos apresentavam inconsistências nos números de lote e de série ou sequer eram reconhecidos pelo fabricante.
Segundo a OMS, esses medicamentos podem conter dose incorreta, substâncias desconhecidas ou contaminantes. Por serem injetáveis, eventuais impurezas entram diretamente no organismo, o que aumenta o potencial de dano.
A orientação é que os consumidores verifiquem embalagem, número de lote, validade e qualidade das informações impressas. Erros ortográficos, falhas de impressão e diferenças no mecanismo de ajuste da dose podem indicar irregularidade.
“No entanto, é importante reforçar que a avaliação visual, isoladamente, não garante autenticidade. Falsificadores podem replicar embalagens com alto grau de semelhança. A forma mais segura de evitar esse risco continua sendo a aquisição exclusivamente em farmácias e estabelecimentos autorizados”, informa Appel.
Popularização e desinformação
A alta procura por essas medicações têm relação direta com a forma como elas passaram a ser divulgadas nas redes sociais. Um estudo recente, da revista Frontiers in Pharmacology (2025), apontou que 53% dos usuários de medicamentos para emagrecer utilizam essas substâncias sem consultar um médico. Entre eles, 32% obtiveram o produto diretamente em farmácias sem prescrição e 15% adquiriram pela internet, inclusive por redes sociais. A influência digital é significativa: 68% relataram que a decisão de uso foi fortemente impactada por conteúdos online.
“Isso favorece a autoprescrição, o uso sem critérios clínicos, a banalização dos possíveis efeitos adversos e a busca por canais de venda irregulares. Sem orientação adequada, o paciente deixa de reconhecer sinais de alerta e para a busca por atendimento quando necessário”, relata Appel.
No Brasil, o cenário encontra terreno fértil. Pesquisa do Conselho Federal de Farmácia indica que 77% dos brasileiros têm o hábito de se automedicar, e mais da metade já alterou por conta própria a dose de medicamentos prescritos. Em medicamentos injetáveis e de uso controlado, essa prática aumenta a vulnerabilidade a complicações.
Diferença entre produto original e falsificado
Medicamentos aprovados passam por controle rigoroso de qualidade, com verificação de pureza, concentração e segurança microbiológica. No caso analisado pelo estudo internacional, as amostras obtidas em sites ilegais apresentaram pureza muito inferior ao esperado e variação relevante na concentração do princípio ativo.
Uma dose acima da indicada pode aumentar a chance de efeitos adversos. Uma dose abaixo pode comprometer a eficácia e levar o usuário a fazer ajustes por conta própria.
“Quando a dose é maior do que a indicada, aumenta-se o risco de eventos adversos, especialmente efeitos gastrointestinais intensos, desidratação e distúrbios metabólicos, além de piora na tolerabilidade. Por outro lado, uma concentração menor reduz a eficácia terapêutica, gera frustração no paciente e pode levar a ajustes inadequados por conta própria”, informa Appel.
Nos dois casos, o paciente perde a previsibilidade do tratamento.
“Comprar canetas emagrecedoras pela internet ou redes sociais, especialmente fora de canais regulados, envolve riscos significativos. O primeiro deles é adquirir um produto falsificado ou de qualidade inferior, sem rastreabilidade adequada”, relata Appel.
Ele acrescenta que também há risco de golpes financeiros, ausência de prescrição e problemas no armazenamento e transporte, que podem comprometer a estabilidade do medicamento, especialmente porque esses produtos exigem controle rigoroso de temperatura.
Um mercado historicamente vulnerável
O problema da adulteração não é exclusivo das canetas injetáveis. Revisão sistemática publicada em 2025 estimou que 37,5% dos produtos “naturais” para emagrecimento analisados apresentavam adulteração com fármacos sintéticos, sendo a sibutramina uma das substâncias mais encontradas.
O dado reforça que o setor de produtos voltados ao emagrecimento é frequentemente alvo de irregularidades.
Riscos clínicos e casos de pancreatite
Além das questões relacionadas à procedência, há riscos inerentes à própria medicação. A bula informa que o medicamento é indicado para diabetes tipo 2 e redução de risco cardiovascular e renal nesses pacientes e alerta para a possibilidade de pancreatite aguda, inflamação que pode ser grave. Recentemente, a OMS lançou diretrizes sobre o uso de medicamentos GLP-1 no tratamento da obesidade.
Entre os sintomas, descritos na bula do Ozempic, estão dor intensa e persistente na parte superior do abdômen, que pode irradiar para as costas, além de náuseas e vômitos.
“A pancreatite pode ser associada a essa classe de medicamentos porque os agonistas de GLP-1 atuam diretamente no eixo gastrointestinal e pancreático, modulando secreções e respostas metabólicas”, simplifica Appel.
Dados de farmacovigilância reforçam a necessidade de monitoramento. Uma análise do sistema norte-americano de notificação de eventos adversos, da revista Frontiers in Pharmacology (2024), identificou 2.313 relatos de pancreatite associados a medicamentos para diabetes entre 2019 e 2021, sendo 70,2% relacionados aos agonistas de GLP-1. No Brasil, a Anvisa registrou 145 notificações de suspeitas de eventos adversos entre 2020 e dezembro de 2025, incluindo seis suspeitas de óbito. No Reino Unido, foram relatadas 1.296 notificações no período de 2007 a 2025, com 19 mortes.
“Quando o produto é falsificado, o risco de pancreatite e de outras complicações pode aumentar devido à falta de controle sobre a dose, pureza e possíveis contaminantes”, esclarece Appel.
Diante do aumento de notificações, a Anvisa determinou que a venda desses medicamentos no Brasil passe a exigir retenção de receita, medida semelhante à adotada para antibióticos.
Dados do sistema Vigimed apontam que, entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025, foram registradas 2.436 notificações de eventos adversos relacionados a medicamentos como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, incluindo 65 mortes suspeitas. A Anvisa ressalta que a notificação não comprova relação de causa e efeito.
Informação como ferramenta de proteção
A segurança no uso dessas medicações depende de prescrição médica adequada, acompanhamento profissional, aquisição em estabelecimentos regulares e educação em saúde.
“O farmacêutico exerce um papel estratégico na prevenção do uso inadequado e na identificação de produtos irregulares. É o profissional que orienta sobre indicação correta, titulação de dose, possíveis interações, armazenamento e reconhecimento de efeitos adversos”, explica Appel.
Também é o profissional preparado para identificar possíveis irregularidades em embalagens, documentos e sistemas de rastreamento, ajudando a comunicar suspeitas às autoridades de saúde.
Rafael também informa que, para diminuir os riscos no uso dessas medicações, é essencial investir em educação em saúde, deixando claro que se tratam de medicamentos com indicação específica, que precisam de prescrição e acompanhamento profissional. Ele também defende o fortalecimento da fiscalização do comércio ilegal online, mecanismos de rastreabilidade e um debate público mais responsável sobre o uso dessas medicações.
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP
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