Divulgação UNIFESP
Com atos públicos e tribunal popular, jornada organizada por Unifesp e Mães de Maio relembra o maior massacre em período democrático e denuncia a permanência da violência estatal no Brasil
Duas décadas após uma das maiores ondas de violência estatal da história recente do país, mães e familiares de vítimas voltam a ocupar espaços públicos para reivindicar aquilo que nunca veio: respostas, responsabilização e reparação.
Entre os dias 14 e 17 de maio, o Projeto Enfrentação — uma parceria entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por meio do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense (CAAF), e o Movimento Independente Mães de Maio — realiza a jornada 20 anos dos Crimes de Maio, com atividades em São Paulo e na Baixada Santista.
A programação inclui Tribunal Popular, debates com autoridades, visitas a espaços de memória e atos públicos. Mais do que marcar uma data, o encontro tenta romper um silêncio que, para as famílias, nunca foi superado.
O que foram os Crimes de Maio
Em maio de 2006, após uma série de ataques atribuídos ao crime organizado, forças de segurança pública desencadearam uma reação violenta em diversas regiões do estado de São Paulo. Em poucos dias, centenas de pessoas foram mortas — muitas delas jovens, em maioria negros(as) e moradores(as) de periferias. Relatórios de organizações de direitos humanos e investigações independentes apontam que grande parte dessas mortes ocorreu fora de confrontos reais, com fortes indícios de execuções sumárias e uso excessivo da força por agentes do Estado. Apesar da dimensão do episódio, frequentemente descrito por pesquisadores(as) e movimentos sociais como o maior massacre em período democrático no Brasil, os Crimes de Maio seguem, em sua maioria, sem investigação conclusiva, responsabilização ou políticas efetivas de reparação.
O surgimento das Mães de Maio
Foi nesse contexto que surgiu o Movimento Independente Mães de Maio. Formado por mulheres que perderam seus filhos durante os episódios de 2006, transformando luto em mobilização política. Desde então, as mães passaram a denunciar a violência policial, pressionar por investigações e construir redes de apoio a outras famílias atingidas. Ao longo dos anos, o movimento se consolidou como uma das principais referências no país — e também internacionalmente — na luta contra execuções extrajudiciais e violações de direitos humanos.
A atuação das Mães de Maio também escancarou uma dimensão frequentemente invisibilizada das vítimas indiretas da violência estatal. São mães, irmãs e familiares que convivem com o impacto contínuo da perda, da ausência de respostas e da negligência institucional.
Memória, escuta e reparação
É nesse ponto que iniciativas como o Projeto Enfrentação ganham relevância. Financiado pela Secretaria de Acesso à Justiça (SAJU), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o projeto aposta na escuta qualificada de mães e familiares como ferramenta central de reconstrução de memória e de acesso a direitos. A proposta vai além do registro histórico: busca reconhecer essas narrativas como parte fundamental da construção da verdade e da justiça, garantindo direitos à memória, à reparação e à não repetição.
Ao reunir familiares de diferentes estados — como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Ceará —, o evento também evidencia que os Crimes de Maio não são um episódio isolado, mas parte de um padrão mais amplo de violência estatal que se repete em diferentes territórios do país.
Um passado que ainda não passou
A programação da jornada reflete esse esforço de articulação entre memória e incidência política. Entre os destaques, está a participação no Tribunal Popular, que será realizada no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), localizado na Rua Maria Paula, 35 - Centro, São Paulo/SP.
No dia 15 de maio, em Santos, ocorre o evento central, com a mesa com mães e autoridades, seguida de outras atividades que incluem visitas a espaços de memória e atos públicos, como o Cordão da Mentira, no centro de São Paulo, e uma mobilização na Baixada Santista. Mais do que rememorar os acontecimentos de 2006, os atos apontam para o presente. Para as famílias, a ausência de respostas sobre os Crimes de Maio não é apenas uma dívida histórica — é também um sinal de continuidade. Sem responsabilização e com poucos avanços concretos em políticas de reparação, a violência policial segue atingindo, de forma desproporcional, jovens negros e moradores(as) de periferias em todo o país.
Programação
14/05 (quinta-feira)
9h às 17h: Participação no Tribunal Popular
Local: Auditório da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB (Rua Maria Paula, 35 - Centro, São Paulo/SP)
15/05 (sexta-feira) – Evento central: 20 anos dos Crimes de Maio
9h: Coffee de recepção
10h: Mesa “Mães e Autoridades” – apresentação de vídeo
Local: Auditório da Receita Federal de Santos
Endereço: Avenida Bernardino de Campos, nº 17, Vila Belmiro, Santos (SP), Canal 2
15/05 (sexta-feira)
17h: Visita ao Memorial das Vítimas de Violência Estatal / Centro de Memória
Local: Praça Domingos Aulicino, 380 da Avenida Jovino de Melo, Santa Maria, Santos/SP
16/05 (sábado)
16h às 18h: Ato público “Cordão da Mentira”
Local: Centro de São Paulo
17/05 (domingo)
15h: Ato público – 20 anos dos Crimes de Maio
Local: Estação da Cidadania
Endereço: Avenida Ana Costa, 340, Gonzaga, Santos/SP
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